Viajar com Vieira - Fé & Justiça XVI - 9 Fevereiro 2008
Por Miguel da Câmara Machado
O auditório do Colégio de São João de Brito encheu-se no Sábado, dia 9 de Fevereiro, qual caravela a assistir ao embarque do Padre António Vieira para, partindo da sua vida e da sua obra, reflectir sobre Fé e Justiça.
Seguindo o exemplo do sacerdote jesuíta, que no seu tempo cruzou o Atlântico como poucos e viajou por toda a Europa, pulando entre o Maranhão e as Cortes europeias, entre pregador régio e preso da Inquisição, perto de 600 pessoas fizeram inúmeras viagens, guiados por homens e mulheres que, quais capitães de navios, nos fizeram descobrir novos mundos e olhar com novos olhos para o nosso mundo.
A manhã começou com pontos biográficos sobre a vida do Padre, padroeiro deste dia, dados pelo, também jesuíta, Pe. Hermínio Rico, a abrir o primeiro painel, sobre Direitos Humanos. Pedro Roseta subiu ao púlpito, imitando o orador e despertou a audiência, incitando à acção dizendo que, neste tema, não nos podemos limitar a isso, o antigo Ministro pintou cenários de violação de direitos do homem e pediu mais combate às mesmas. Seguiu-se José Souto de Moura, procurando distinguir Relatividade de Relativismo, ideias de opiniões, caracterizando o elenco dos direitos humanos mais como universalizáveis que universais. O painel fechou-se com Fernando Nobre, partindo da sua experiência na AMI, lamentando a falta de respeito pelos 30 artigos que compõem a recém-sexuagenária Declaração Universal dos Direitos do Homem, procurando, como António Vieira, combater as escravaturas, as “novas” - da imigração ilegal à escravidão pelo trabalho, produtividade e consumismo – exigindo-nos um grito ainda mais alto que o do padre jesuíta.
Seguimos a discussão para o diálogo inter-cultural e inter-religioso, seguindo as dicas do Pe. Mário Garcia, do “estalo” e da “lábia de Vieira” à procura de evitar o assaz castigo que, nas palavras da nossa inspiração, é “dizer pouco e não ser breve”. Guilherme Oliveira Martins lembrou a passagem que António Vieira fazia espectacularmente, do Verbo-divino ao verbo-palavra, e pediu para lermos a defesa da dignidade humana, da compreensão das diferenças, nos textos de Vieira, com os olhos de hoje, deixando-nos seduzir como ontem. Continuámos com Ester Muznick, lembrando a defesa que António Vieira fez dos judeus, criticando a perseguição pelo sangue “o mesmo do filho de Deus, dos Sagrados Apóstolos e da Virgem Santíssima”, a protecção dos cristãos-novos, o ataque à Inquisição “não te julgue quem mal te quer” e a sua suspensão temporária que Vieira conseguiu. A professora de História Judaica lembrou o amor do jesuíta ao diálogo, como manifestação de reconhecimento do outro e da sua legitimidade, e a necessidade de compromissos conjuntos para a acção, para contribuir para a pacificação. A viagem seguiu com Roberto Carneiro, rumo aos Balcãs e a um terrível cenário de choque cultural e religioso, seguindo o elogio da palavra de e por Vieira, a sua principal arma, aquela “que liberta o escravo do senhor”, lembrando a sua vontade de conseguir “amar sem ver, pela palavra”. Sendo, para este painel, a chave aquela que Vieira usou no sermão de Sto. Agostinho “o verdadeiro saber é o de conhecer a verdade, ainda que seja filha de outros olhos, e não se cegar com os próprios, como se cegou Lucifer.”
Depois do almoço, o caminho da Fé e da Justiça continuou em busca de um desígnio para Portugal, partindo dos apelos de Vieira. Outro padre António, Vaz Pinto, traçou paralelos entre as situações do século XVII e XXI portugueses, realçando a figura de D. João IV, restaurador da independência em quem Vieira tanto confiou e tanto foi confiado, o Pe. Vaz Pinto ainda salientou a Meditação do Reino, inaciana, como fulcral na acção de Vieira, como base de uma vida que terá sido “de derrota em derrota até à vitória final, um sinal de esperança.” Um terceiro António, Vitorino, começou por colocar a questão do desígnio num plano de presidenciáveis, iniciando-se um “jogo da batata quente” com Marcelo Rebelo de Sousa. A sua exposição rodou em torno da identidade nacional e de como a preservar entre três tensões – universalismo vs. paroquialismo, maior flexibilidade para desafios externos que internos e a questão do tipo de democracia. António Vitorino realçou a importância da Europa, da revisão do sistema eleitoral, de modo a agir contra uma lógica da sociedade que desincentiva à participação, desejando uma mobilização dos cidadãos como a sonhada pelo padre jesuíta.
A guia seguinte foi Paula Moura Pinheiro, salientando que com António Vieira tivemos uma “demanda messiânica” com um “objectivo celeste”, que “se Camões foi o poeta das incertezas, Vieira foi o soldado das convicções.” Rebelo de Sousa fechou este painel anunciando ser o jesuíta o seu “Grande Português” defendendo ser um imperativo da Fé passar do plano abstracto ao prático, falando do ânimo que Vieira trouxe a um Portugal desconsolado como hoje. O professor questionou-se sobre as razões do desconsolo actual, descrevendo quatro desafios na recente evolução nacional - deixar de ser Império, ter uma democracia “muito nova e muito velha”, a mais valia da lusofonia na Europa e a “Nova Economia” – e dizendo ser um convite da vida do Padre António Vieira uma resposta optimista a tudo isto.
Rumo ao fim do dia, o último jesuíta orador das conferências, o Pe. Miguel Gonçalves Ferreira, abriu a reflexão em torno do Serviço da Fé, procurando ler o serviço de Vieira com a Sagrada Escritura, a sua proclamação do Evangelho, cruzando as imagens de S. João Baptista e do Pregador de Sua Majestade, o apelo à conversão, à restauração num sentido amplo, profético, fundando o êxito de Vieira na sua Fé, do conforto do Paço, ao cárcere da Inquisição, ao fausto de Roma até ao Sertão inóspito. O Pe. Gonçalves Ferreira lembrou o desejo vieirino de “acertar com a vontade de Deus” e pediu para o imitarmos na sua Fé.
A viagem continuou com D. Carlos Azevedo, focando três dimensões do Serviço da Fé em Vieira – a fidelidade à palavra de Deus, por ela impelindo a mais, procurando converter toda a vida ao amor, através de uma palavra transformadora; a coerência na defesa da Justiça, realçando o exercício de todo o poder em António Vieira ao serviço do bem comum, da dignidade humana verdadeira, devendo orientar-se assim todo o cristão no poder, constantemente chamado a defender os outros, a manter as liberdades dos outros (“Será difícil defender os índios, os escravos, os interesses da pátria, hoje?”); e a qualidade nos modos, com graça e encanto formal, não deixando o estilo obscurecer a mensagem, apelando o Bispo auxiliar de Lisboa à utilização da estética e da beleza no cristianismo hoje, da estética cristã, “a cruz não é bela segundo critérios apolíneos, o seu estilo é encarnação, a beleza resulta da entrega, a beleza da salvação.”
Seguimos com Manuel Braga da Cruz, partindo da inaciana busca pela maior glória de Deus, demonstrando como Vieira evangelizou a cultura portuguesa, e evangelizou pela cultura, que a sua palavra “deleitasse, educasse e movesse”, detectando dois elementos no padre jesuíta – um desafio ao cristão a saber enfrentar a cultura e a, pela estética, chegar a Deus (numa sociedade actual tão relacionada com a imagem, com a beleza, numa cultura pós-materialista, usar a cultura moderna como Vieira usou a paramética) e uma personalidade de contemplativo na acção (um paradigma jesuítico e português), de completar uma necessidade da palavra e da obra de Deus. O sociólogo trouxe o jesuíta aos nossos dias, lembrando a importância do testemunho, o ser um evangelizador de elite e não de elites, tanto na Corte como na Amazónia ou no Deserto, a forma como influenciou o poder e mobilizou a opinião – colocando a questão de saber como concretizar hoje uma opção preferencial pelos pobres. Continuámos com Laurinda Alves, que agradeceu a maravilha de ter António Vieira presente pelos seus textos, a importância de os cristãos, como ele, responderem com a vida. A jornalista traçou paralelos entre a nossa comunicação e a comunicação social, a importância de agir em contra-corrente, de focar no Bem, de emanar a alegria do Senhor, de, tal qual Vieira, comunicar Deus às vezes nem sequer o pronunciando.
A grande viagem deste dia aproximou-se do fim com gritos de “terra à vista” e o apelo de D. Carlos Azevedo de “deixarmos remoer nas nossas mentes e nos nossos corações as questões aqui tratadas, que este ‘exercício espiritual’ possa permitir a cada um de nós renovar a sua mente para melhor servir a Fé que o move.”


